O fenômeno global do nearshoring e o Brasil
O nearshoring — a estratégia de aproximar as cadeias de fornecimento para regiões geograficamente mais próximas dos mercados consumidores — emergiu como uma das tendências mais significativas do comércio global pós-pandemia. Motivado pela busca de resiliência, redução de lead times e mitigação de riscos geopolíticos, o movimento está redesenhando fluxos logísticos em todo o mundo.
Para o Brasil, o nearshoring representa uma oportunidade singular. Segundo análise da McKinsey, o país poderia capturar entre US$ 35 bilhões e US$ 65 bilhões em novas exportações até 2030, substituindo fornecedores asiáticos em cadeias de suprimentos norte e sul-americanas. A CNI complementa essa perspectiva: setores como químico, metalmecânico, têxtil e agroalimentar são os que apresentam maior potencial de atração de investimentos ligados ao nearshoring.
No entanto, para que essa oportunidade se materialize, a infraestrutura logística brasileira precisa estar à altura. E é exatamente nesse ponto que residem os maiores desafios e as maiores oportunidades de transformação.
Impactos na infraestrutura de transportes
O nearshoring pressupõe cadeias mais curtas e mais ágeis. No contexto brasileiro, isso significa repensar a matriz de transportes:
Rodoviário: ainda dominante, mas sob pressão
O modal rodoviário responde por aproximadamente 65% do transporte de cargas no Brasil, segundo o ILOS. Com o nearshoring, espera-se um aumento dos fluxos intrarregionais (especialmente no Mercosul e na América Latina), o que tende a intensificar a demanda sobre rodovias já saturadas nas regiões Sul e Sudeste.
A CNT (Confederação Nacional dos Transportes) classifica 57% das rodovias brasileiras como regulares, ruins ou péssimas. Esse dado evidencia a necessidade urgente de investimentos em manutenção e ampliação da malha rodoviária para sustentar o crescimento dos fluxos de nearshoring.
Marítimo: a porta de entrada
O transporte marítimo será o principal modal para os fluxos de nearshoring de longa distância. Portos como Santos, Paranaguá e Itajaí precisarão ampliar sua capacidade e eficiência operacional. Dados da ANTAQ mostram que o tempo médio de espera para atracação nos principais portos brasileiros é de 2,3 dias — um indicador que precisa melhorar significativamente para que o país seja competitivo como destino de nearshoring.
A ABOL (Associação Brasileira de Operadores Logísticos) destaca que investimentos em automação portuária, dragagem e conexões intermodais são fundamentais para reduzir os custos logísticos e melhorar a competitividade dos fluxos marítimos.
Ferroviário: o modal subutilizado
Com apenas 15% de participação na matriz de transportes, o modal ferroviário é historicamente subutilizado no Brasil. No entanto, projetos como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e a Ferrovia Norte-Sul podem criar corredores logísticos estratégicos para o escoamento de produtos industriais ligados ao nearshoring.
Impactos na armazenagem e distribuição
O nearshoring não afeta apenas o transporte: ele redesenha toda a lógica de armazenagem e distribuição. Os principais impactos incluem:
- Demanda por armazéns próximos a portos e fronteiras: a concentração de fluxos em pontos de entrada específicos está impulsionando a demanda por centros de distribuição em localizações estratégicas, especialmente nas regiões Sul (fronteira com Argentina, Paraguai e Uruguai) e Sudeste (complexo portuário de Santos).
- Crescimento das zonas francas e áreas de livre comércio: estruturas como a Zona Franca de Manaus e os futuros regimes especiais de importação podem se beneficiar do nearshoring, atraindo operações de montagem e valor agregado.
- Necessidade de operações cross-docking: com cadeias mais curtas, a tendência é de redução dos estoques de segurança e aumento das operações de cross-docking, que exigem centros logísticos com alta eficiência operacional.
A Gartner projeta que, até 2027, 35% das grandes empresas globais terão redesenhado suas redes de distribuição em resposta ao nearshoring, priorizando proximidade com mercados finais e redundância logística.
Desafios regulatórios e aduaneiros
Um dos principais gargalos para o Brasil capturar os benefícios do nearshoring é a complexidade do ambiente regulatório e aduaneiro. A FIESP aponta que o tempo médio de desembaraço aduaneiro no Brasil é de 7,6 dias, contra 3,4 dias no México e 1,2 dia nos Estados Unidos.
Os desafios incluem:
- Burocracia aduaneira: excesso de documentos, licenças e controles que aumentam o tempo e o custo das operações de comércio exterior.
- Acordos comerciais limitados: o Brasil possui poucos acordos de livre comércio em vigor, o que limita sua competitividade tarifária em relação a concorrentes como México (que tem acordos com EUA, UE e dezenas de outros países).
- Complexidade tributária: a carga tributária sobre importações e a complexidade do sistema fiscal brasileiro são barreiras significativas.
Avanços como o Portal Único de Comércio Exterior (programa do governo federal) e a reforma tributária em curso buscam mitigar esses gargalos, mas a implementação efetiva ainda está em andamento.
Oportunidades para a indústria e a logística brasileiras
Apesar dos desafios, o nearshoring oferece oportunidades concretas para empresas que se posicionarem estrategicamente:
- Operadores logísticos especializados: há demanda crescente por operadores capazes de gerenciar fluxos complexos envolvendo múltiplos modais e operações aduaneiras. Profissionais de gestão e estratégia em logística serão essenciais para capturar esse valor.
- Fornecedores industriais locais: empresas brasileiras que atenderem aos padrões de qualidade e prazo exigidos por multinacionais em busca de fornecedores regionais terão acesso a novos mercados e volumes.
- Hubs logísticos multimodais: regiões que investirem em infraestrutura integrada (porto + ferrovia + rodovia + armazém) poderão se tornar polos de atração para operações de nearshoring.
- Serviços de valor agregado: montagem, embalagem, customização e controle de qualidade realizados no Brasil podem agregar valor às operações de nearshoring.
A ABOL estima que o nearshoring pode gerar até 200 mil novos postos de trabalho no setor logístico brasileiro até 2030, considerando operações diretas e indiretas.
O que as empresas devem fazer agora
Para capturar as oportunidades do nearshoring, empresas industriais e logísticas brasileiras devem:
- Mapear oportunidades setoriais: identificar quais cadeias de suprimentos globais estão em processo de regionalização e onde o Brasil pode ser competitivo.
- Investir em certificações e padrões internacionais: qualidade, sustentabilidade e compliance são pré-requisitos para atender compradores globais.
- Modernizar a infraestrutura logística: investir em tecnologia, automação e integração de modais para reduzir custos e melhorar a confiabilidade.
- Fortalecer parcerias regionais: construir redes de fornecedores e operadores logísticos que cubram os principais corredores de comércio na América Latina.
- Engajar-se em advocacy: participar de iniciativas setoriais que pressionem por melhorias regulatórias, aduaneiras e de infraestrutura, fundamentais para a competitividade logística de setores industriais e tendências emergentes.
"O nearshoring é uma janela de oportunidade que não ficará aberta indefinidamente. O Brasil precisa agir com urgência para modernizar sua infraestrutura logística e regulatória." — Pesquisa ILOS sobre Logística e Nearshoring, 2024.
Conclusão
O nearshoring está redesenhando a geografia das cadeias de suprimentos globais, e o Brasil tem potencial para ser um dos grandes beneficiários desse movimento. No entanto, materializar essa oportunidade exige investimentos significativos em infraestrutura logística, simplificação regulatória e desenvolvimento de competências industriais. Empresas que se anteciparem a essas tendências e investirem na modernização de suas operações logísticas estarão mais bem posicionadas para capturar os benefícios dessa transformação global.